Existe um tipo de adoecimento que não aparece em exames de sangue, não tem código CID e raramente é mencionado na consulta médica. O doutor Yuri Silva Portela, pós-graduado em Geriatria e fundador do projeto social Humaniza Sertão, trata a solidão como um sinal vital que merece investigação e resposta. Afinal, a solidão crônica entre idosos é uma condição silenciosa com consequências fisiológicas documentadas, e ignorá-la é uma falha clínica tão grave quanto não verificar a pressão arterial.
Ao longo deste artigo, você vai entender por que a solidão adoece, como reconhecê-la e o que a medicina geriátrica humanizada pode fazer diante desse cenário. Leia com atenção.
A solidão como fator de risco clínico para o idoso
A ciência já estabeleceu com clareza que a solidão crônica eleva o risco de doenças cardiovasculares, demências, depressão e mortalidade precoce em idosos. Os mecanismos são reais: o isolamento social ativa respostas inflamatórias, compromete o sono e desregula o eixo do estresse. O organismo humano não foi projetado para funcionar sem vínculos, e, na terceira idade, essa necessidade se intensifica exatamente quando as redes de relações tendem a se reduzir.
Para o doutor Yuri Silva Portela, pós-graduado em Geriatria, o problema se agrava porque a solidão do idoso muitas vezes não se manifesta como tristeza visível. Já que ela aparece disfarçada de queixas físicas difusas, de múltiplas visitas ao médico por motivos aparentemente banais ou de uma adesão ao tratamento que piora sem razão clínica aparente. Portanto, reconhecer esses sinais exige uma escuta que vai além do protocolo convencional de consulta.
Nas comunidades do sertão atendidas pelo Humaniza Sertão, essa solidão tem uma dimensão geográfica aguda. Isto é, idosos que vivem em localidades de difícil acesso podem passar semanas inteiras sem contato humano significativo. O projeto chega, um dia por mês, como uma ruptura nesse silêncio, e esse gesto tem impacto clínico que nenhum fármaco consegue replicar.
O que a medicina geriátrica pode fazer diante da solidão do idoso?
A resposta começa pela avaliação. Significa que incorporar perguntas sobre vínculos, frequência de saídas, qualidade das relações familiares e percepção subjetiva de pertencimento à rotina da consulta geriátrica é um primeiro passo que custa zero e revela muito. A solidão identificada é uma solidão que pode ser endereçada com intervenções que vão desde encaminhamento para grupos de convivência até ajuste de tratamentos que isolam o paciente como efeito adverso.

De acordo com o doutor Yuri Silva Portela, o envolvimento da família é indispensável nessa equação. Muitos idosos que vivem com familiares relatam solidão emocional profunda porque a convivência física não se traduz em presença real. Por isso, estar no mesmo ambiente não é o mesmo que se importar com o que o idoso sente, pensa e precisa. A medicina humanizada precisa educar as famílias sobre essa diferença com clareza e sem julgamento.
Por que projetos comunitários respondem onde a clínica tem limites?
Há dimensões da solidão que o consultório médico simplesmente não alcança. A sensação de ser visto, de ter valor, de pertencer a algo maior do que a própria casa: essas experiências exigem comunidade, não apenas tratamento. É aqui que iniciativas como o Humaniza Sertão demonstram seu valor mais profundo. Cada ação mensal do projeto cria, por algumas horas, um espaço de encontro genuíno que muitos idosos atendidos não encontram em nenhum outro lugar.
Conforme destaca o doutor Yuri Silva Portela, o cuidado que chega até as pessoas, em vez de esperar que elas venham, já é, em si mesmo, uma intervenção contra o isolamento. Ele comunica que aquele idoso, naquela localidade remota, importa o suficiente para que uma equipe de mais de vinte profissionais voluntários se desloque até ele. Em suma, esse gesto tem peso clínico e humano que nenhum protocolo captura completamente.
Reconhecer a solidão é o começo do cuidado real
A medicina que ignora a solidão do idoso trata apenas parte do paciente. A que a reconhece como fator de risco real e age sobre ela amplia seu alcance de formas que os indicadores convencionais dificilmente conseguem mensurar, mas que os próprios pacientes sentem de forma imediata e profunda.
O doutor Yuri Silva Portela acredita que ouvir o silêncio do idoso é uma competência clínica que precisa ser desenvolvida. Se o idoso que você ama parece distante, desanimado ou cada vez menos presente, pergunte. Não sobre os medicamentos ou os exames. Pergunte como ele está se sentindo. Às vezes, essa é a consulta mais importante que ele vai ter.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez