Tecnologia desenvolvida por pesquisadores de Cuiabá reconhece quatro pragas de soja e milho e funciona parcialmente no próprio smartphone.
Uma tecnologia desenvolvida com participação de pesquisadores do Instituto Federal de Mato Grosso (IFMT), em Cuiabá, pode aproximar a inteligência artificial da rotina de produtores que precisam identificar pragas em lavouras de soja e milho. O sistema, chamado AgroInsect, combina visão computacional, inteligência artificial e geolocalização para reconhecer quatro espécies de importância agrícola a partir de imagens feitas por smartphones. A novidade ganhou destaque nos últimos dias após a publicação de um estudo sobre a tecnologia em uma revista científica internacional classificada no primeiro quartil (Q1). O diferencial para Mato Grosso está justamente na possibilidade de executar parte do processamento no próprio celular, uma característica importante para propriedades rurais onde a conexão de internet é instável. Em um estado de dimensões continentais e forte dependência do agronegócio, a pergunta que surge é prática: como uma IA no celular pode ajudar o produtor a detectar pragas mais cedo e tomar decisões mais precisas no campo?
Como funciona a IA criada por pesquisadores do IFMT
O AgroInsect foi desenvolvido por pesquisadores do IFMT Campus Cuiabá – Cel. Octayde Jorge da Silva em parceria com o Instituto Federal Goiano e a Birmingham City University, no Reino Unido. A arquitetura combina técnicas de deep learning, visão computacional e análise geoespacial para identificar insetos relacionados a culturas agrícolas. Segundo o IFMT, a tecnologia foi preparada para reconhecer quatro espécies de importância para soja e milho: Diabrotica speciosa, Dalbulus maidis, Diceraeus spp. e Spodoptera frugiperda. O estudo foi publicado na revista Computers and Electronics in Agriculture, da Elsevier, periódico classificado no primeiro quartil da área. (IFMT Cuiabá)
Na prática, a proposta é transformar o celular em uma ferramenta de apoio ao monitoramento. Em vez de depender necessariamente de equipamentos especializados para cada etapa, o sistema pode processar parte das informações diretamente no smartphone, identificar a praga e associar o registro à localização geográfica. Isso é especialmente relevante para Mato Grosso porque grandes propriedades podem apresentar diferenças significativas de ocorrência de insetos entre talhões, tornando insuficiente uma observação genérica de toda a fazenda. A partir dos registros, a tecnologia também pode gerar mapas de distribuição das pragas, ajudando a visualizar onde o problema está concentrado e permitindo que o monitoramento seja direcionado para determinadas áreas. O objetivo não é substituir o agrônomo ou o responsável técnico, mas oferecer uma camada adicional de informação para melhorar a tomada de decisão. (IFMT Cuiabá)
Por que a tecnologia é importante para o produtor de Mato Grosso
A relevância da ferramenta aumenta quando considerada a escala do agronegócio mato-grossense. Soja e milho ocupam uma posição central na produção estadual, e o monitoramento de pragas pode influenciar custos, produtividade e qualidade da lavoura. Identificar um inseto rapidamente não significa automaticamente que será necessário aplicar defensivo, porque a decisão depende de fatores como espécie, quantidade, estágio da cultura, nível de dano e orientação técnica. A tecnologia pode contribuir justamente na etapa anterior, fornecendo informações mais rápidas e organizadas para que o produtor e sua equipe saibam onde concentrar a inspeção. Em vez de tratar uma área inteira de maneira uniforme, mapas de ocorrência podem ajudar a construir uma visão mais localizada do problema.
Outro ponto decisivo é a conectividade rural. Uma ferramenta que dependa integralmente de uma conexão permanente pode enfrentar dificuldades em propriedades afastadas dos grandes centros urbanos. O AgroInsect foi pensado com uma arquitetura híbrida na qual parte do processamento ocorre no próprio dispositivo, reduzindo essa dependência em determinadas etapas. Isso não significa que a solução dispense toda infraestrutura de dados, mas amplia sua possibilidade de utilização em cenários nos quais a internet não apresenta a mesma qualidade disponível em Cuiabá ou outras cidades. Para o produtor, a vantagem potencial está em transformar um equipamento que já faz parte da rotina — o smartphone — em uma ferramenta adicional de coleta e análise de informações agrícolas. (IFMT Cuiabá)
O que essa pesquisa pode mudar no agro e no mercado de tecnologia de MT
A pesquisa também mostra como instituições de ensino de Mato Grosso podem participar de uma cadeia de inovação voltada a problemas específicos do campo. O trabalho surgiu de uma tese de doutorado do pesquisador Guilherme Pires Silva de Almeida, do IFMT Campus Cuiabá, desenvolvida no âmbito de um Doutorado Interinstitucional entre IFMT e IF Goiano. A pesquisa teve participação de outros pesquisadores das duas instituições e de um professor da Birmingham City University, além de apoio de órgãos e instituições como MCTI, Finep, CNPq, FAPEG, CEAGRE e Capes. O registro do aplicativo AgroInsect no Instituto Nacional da Propriedade Industrial também aparece nos documentos oficiais de programas de computador. (IFMT Cuiabá)
Esse tipo de pesquisa pode ter impacto além da identificação de insetos. Ao aproximar inteligência artificial, agricultura de precisão e georreferenciamento, o projeto cria uma base tecnológica que pode inspirar outras aplicações para o agronegócio, como monitoramento de doenças, identificação de plantas daninhas e acompanhamento de diferentes ocorrências no campo. A experiência também reforça o papel das instituições de ensino na formação de profissionais capazes de desenvolver soluções tecnológicas a partir de problemas reais de Mato Grosso. Isso combina com um movimento mais amplo de aproximação entre produtores e startups observado no estado: o AgriHub Conecta 2026, por exemplo, levou tecnologias para validação em propriedades rurais e buscou medir o desempenho das soluções em situações reais de operação. (Portal CNA Brasil)
Para o produtor mato-grossense, entretanto, o mais importante é separar pesquisa promissora de tecnologia pronta para uso em larga escala. A publicação científica demonstra o desenvolvimento e a avaliação da solução, mas a adoção comercial exige etapas adicionais, como validação em diferentes condições de campo, integração com rotinas agrícolas, treinamento dos usuários e comprovação de desempenho em situações variadas. A inteligência artificial também não elimina a necessidade de acompanhamento técnico, especialmente porque uma identificação automatizada deve ser interpretada dentro do contexto agronômico da propriedade. O caminho mais interessante para Mato Grosso é justamente combinar o conhecimento de quem conhece a lavoura com ferramentas capazes de processar grandes volumes de dados.
O AgroInsect representa, assim, um exemplo concreto de como a tecnologia desenvolvida dentro de uma instituição de ensino mato-grossense pode atacar um problema diretamente ligado à produção agrícola. A possibilidade de usar um smartphone para identificar pragas e gerar mapas de ocorrência aproxima a inteligência artificial da realidade de propriedades que precisam tomar decisões rápidas e controlar custos. Para o estado, o avanço também mostra que inovação no agro não depende apenas de máquinas gigantes ou grandes centros de pesquisa: ela pode nascer em Cuiabá, dentro de uma instituição pública de ensino, e ser construída a partir de uma necessidade encontrada no campo. Os próximos passos serão decisivos para saber até onde a ferramenta pode chegar, mas a combinação entre IA, conectividade limitada e agricultura de precisão já aponta para uma transformação importante na forma de monitorar as lavouras de Mato Grosso.
Fontes verificáveis: IFMT — pesquisa sobre IA aplicada à agricultura · INPI — registro do aplicativo AgroInsect · CNA/Famato — validação de tecnologias em propriedades de MT · CNA/Famato — missão técnica AgriHub Conecta 2026